terça-feira, fevereiro 5

Vou...

...rebentar. Ou vou implodir. Sinto-me uma casca de noz à deriva no oceano e ao sabor das tempestades. Tenho 41 anos e hoje detesto-me. Hoje detesto tudo em mim, detesto principalmente o facto de não ter nada, de não ser nada, de não ter construído nada. Detesto o facto de estar com uma depressão (e eis-me a chamar a besta pelo seu nome) e mesmo assim achar que depressão é para dondocas com dinheiro a mais e vida a menos. E eu tenho vida a mais. Quase não tenho onde cair morta e qualquer dia perco o pouco que herdei porque - voltamos ao mesmo - sou uma merda. Olha à minha volta e penso que, se desaparecer, provavelmente levarão uma semana a dar por isso, se calhar porque deixei alguma coisa desarrumada.

Preciso de ajuda, de mimos, de apoio, de abraços. Não que ninguém veja o que se está a passar e me grite, ainda por cima. E não, não tenho um problema com o álcool. Tenho um milhão de problemas, não tenho emprego, devo uma fortuna ao banco, e o álcool não me resolve a vida mas resolve-me o medo, impede-me de dar um tiro nos cornos, de pensar que sou uma merda e que se desse um tiro nos cornos resolvia o meu problema financeiro de vez.

Olho à minha volta e toda a gente tem a vida mais ou menos alinhavada menos eu. Eu não, tinha de ser diferente, tinha de ir para o fim do mundo empenhar-me até ao tutano porque era mais que os outros, aventureira e superior, e a vidinha vulgar de lineu não me servia. E agora caio na realidade e vejo que não valho um pataco, que toda a gente como sempre tinha carradas de razão e que, se tivesse tido um bocadinho de humildade, se calhar teria um presente, um futuro.

E passei metade da tarde e grande parte da noite a achar, como sempre, que tudo se vai resolver, a família vai resolver, têm dinheiro, não me vão deixar perder tudo, alguém vai resolver, vou arranjar um emprego qualquer e vou viver a minha vidinha sem percalços. Não. Não. NÃO!

Foi preciso sair de carro e cumprir as regras todas, andar a 50 e pôr o cinto, e mesmo assim levar com uma multa de 60 euros porque deitei uma beata pela janela. Logo eu, a ecologista de trazer por casa. Incrível como uma coisa tão obviamente errada me fez cair na realidade.

Dizem que todos temos um talento na vida e que a definição de felicidade é descobri-lo a tempo. Bom, parece que descobri o meu: fazer merda. E sou excelente nisso.

Sem comentários: